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2- Entrevistas.
A reação da moral
no Poder Público
Advogados, promotores e juízes espíritas divulgam o valor das idéias
de justiça e de paz
Eliana Haddad
Em menos de um ano de atuação, a AJE-SP, Associação
Jurídico-Espírita de São Paulo já demonstra a força da união dos
profissionais de Direito espíritas. São advogados, promotores
e juízes que organizam eventos específicos para divulgar o valor das
idéias de justiça e de paz que o Espiritismo desperta como condutor da
verdadeira responsabilidade social. TIAGO CINTRA ESSADO, 32,
promotor de justiça/SP, hoje presidente da AJE-SP, concedeu ao Correio
Fraterno essa elucidativa entrevista:
1) Como surgiu a idéia da AJE-SP? Qual o seu papel?
A
idéia de se fundar a AJE-SP foi fruto dos trabalhos desenvolvidos,
desde 2002, no Grupo Espírita de Estudos Jurídicos Prof. Fernando
Ortiz, em Franca-SP. Com reuniões mensais, discutindo diversos
assuntos – aborto do anencéfalo, células-tronco, corrupção, união
civil entre pessoas do mesmo sexo, violência, conflitos domésticos etc
– sempre desejando expandir este núcleo para diversas regiões do
Estado. De outro lado, participando desde 2003 do MEDNESP – congresso
que reúne as AME’s (Associação Médico-Espírita) – verificamos que tal
espaço deveria também ser ocupado pelos militantes do Direito. No
final de 2007, passamos a ter contato com diversas outras pessoas que
também tinham este ideal. Descobrimos a já existência, a contar de
2001, das AJE’s do Rio Grande do Sul e do Espírito Santo. Lançada a
idéia, aos poucos foi se concretizando.
2) Como você analisa o surgimento de tantas entidades de classe
espíritas no momento atual ?
A
sociedade atual exige organização para se conseguir êxito nos
objetivos a que nos propomos. Organização pressupõe, sobretudo, união,
cooperação. Isolados, não temos a mesma força que a de um grupo
harmônico e coeso voltado para o fim desejado. O crime nos ensina
isto, basta lembrar que a criminalidade atual organizou-se e bem,
unindo esforços para o mal. Nesta mesma linha, as associações de
classe espíritas revelam a imprescindível necessidade de se organizar,
para que os estudos sejam aprofundados, mediante a troca de
experiências, e que a atuação profissional possa ser aperfeiçoada. Aos
poucos, dentro de cada classe, vai se formando um verdadeiro exército
do bem.
3)
Qual sua opinião sobre as leis humanas?
A
lei humana revela o atual estágio em que se encontra a civilização.
Fazendo breve retrospecto histórico, percebemos a evolução da
legislação, ainda que paulatinamente. Antes, o devedor tinha parte de
seu corpo decapitado para liquidar o débito. Hoje, seu patrimônio é
que deve ser transferido ao credor, sendo sua vida e integridade
física invioláveis. Aos poucos, vamos percebendo a introdução de
princípios evangélicos, como honestidade, lealdade, respeito à vida e
liberdade, trabalho digno, propriedade limitada e com função social,
na legislação humana. Trata-se de um fato indiscutível a conferência
pelo homem de valor jurídico a princípios cristãos. No entanto, há
muito o que melhorar. E este espaço nos remete ao dever de trabalhar
para este progresso.
4) Você poderia nos esclarecer sobre a questão da crise no Poder
Judiciário?
A
crise no Poder Judiciário, aqui entendido como Justiça em geral,
assume diversos aspectos. Um deles é a baixa valorização dos
servidores, por conta de serviço excessivo, poucos funcionários e
falta de preparo, muitas vezes. A Justiça trata-se de verdadeira
engrenagem, merecendo respeito todos seus componentes, desde o juiz
até o servidor que executa tarefas menores, mas imprescindíveis para o
andamento da máquina. A outra crise é moral. É triste ainda notar
escândalos de corrupção envolvendo altas autoridades. Tratamentos
desumanos, muitas vezes, são dispensados aos cidadãos que, por
qualquer motivo, precisam da Justiça. Processos morosos, cujo
resultado, quando concretizado, acaba sendo ineficaz.
5) Qual a ética atual para a sociedade humana?
A
ética ideal é a ética de Jesus. Seu Evangelho ainda é o melhor código
para a vida terrena. Quem errou, deve reparar o dano. Mas quem tem o
dever de aplicar a lei, deve agir com amor, ainda que, para o caso
concreto, a pena deva ser severa. Somos todos irmãos e o erro faz
parte da natureza humana. Perdoar não é isentar o culpado dos acertos
necessários, mas é também compreender que inexiste erro irreparável.
6) Qual o papel dos operadores de Direito para a regeneração da
Humanidade?
A
Justiça precisa ser reformulada. E não obstante a necessidade de
reformas legais, estruturais, informatização, a reforma moral de seus
atores afigura-se inevitável. O indivíduo que se encontra de um lado
ou de outro no processo judicial, independente do caso, merece
respeito. O arbítrio é ilegal. O tratamento diferenciado por conta de
condições econômicas deve ser abolido. O preconceito não combina com
qualquer operador do direito. Tudo isto gera injustiça e isto não
combina com uma sociedade que se pretende pacífica. O operador do
direito deve entender que não lida com papéis, mas com vidas humanas.
Esta mudança de postura já será, por ora, grande avanço.
7) Como o Espiritismo pode colaborar para o estabelecimento da paz e
da justiça na Terra ?
A
Doutrina Espírita colabora, inevitavelmente, para a melhoria do homem,
demonstrando-lhe que o progresso ocorrerá, com amor ou com dor, e que
somos depositários da confiança divina conforme a posição e cargo que
ocupamos na Terra, tendo o homem o dever, pois, de prestar contas do
trabalho realizado ou não. A transformação moral individual leva à
transformação social, já que o exemplo contagia, e, com isso, o bem se
dissemina no seio social. O conjunto de valores ético-morais emanado
da Doutrina Espírita quando convertido em ação prática tem potencial
transformador.
8) O homem está em crise com seus valores. Por quê?
A
crise de valores existe. Uns ainda não compreendem o real significado
da existência, predominando a visão materialista. Outros estão
cansados de posições dogmáticas, mas ainda são resistentes quanto à
mudança de visão. O conflito instala-se, pois, causando perturbação e
dor. Alcançar a serenidade e concluir que o trabalho individual e
social é fonte de mudança requer tempo e maturidade.
9) Dá pra melhorar esse mundo? O que fazer?
A
mudança implica a confiança no valor esperança. Enquanto depender da
liberdade humana para se alterar rumos, a crença positiva de que a
melhor decisão ocorrerá é obrigação de todos nós que acreditamos nos
valores evangélicos, no potencial criador do homem. Nesse sentido, a
esperança deve sempre estar presente em nossas vidas, pensamentos e
sentimentos, de modo que nossas ações sejam sempre positivas.
Acreditar na mudança humana é o primeiro passo para a própria mudança.
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